Quando eu nasci veio um anjo morto, desses frutos de aborto clandestino,e me disse: vai ser puta na vida, Clementina, quem mandou nascer de cor. Crescendo fui aprendendo que meu anjo não errou.
Quem gosta de negro é gringo. Não pense que brasileiro gosta de preto. Foram quatro séculos de escravidão. E tem gente que ainda diz que o brasileiro não é racista. Tem tese. Livros escritos. Até a democracia racial é por vezes requisitada pra desfilar na passarela. Mas, no fundo,quando acaba a festa,quem limpa o palco é sempre o negro.
Foram quatro séculos. Tempo em que nunca perguntavam o preço. Iam enfiando e a gente tinha que gemer baixinho pra não chamar a atenção da senhoria. E depois fomos parar na Ladeira da Montanha. Maria da Vovó, 68, enquanto as madames ficavam em casa descansando. Nós devíamos ter ganhado status de professores universitários. Afinal era com a gente que os filhos dos bacanas viam se iniciar no sexo. A seco. Sem precisar de vestibular, nenhum exame de admissão. Era pau no cu. Sem dó. Quem mandou não estudar. Nascer preta. Vai ser puta.
Sair de casa. Sair, não. Ser expulsa. Se perdesse o cabaço com um filho de bacana, fudeu. Filho meu não casa com mulher dama. Pai botava pra fora de casa. Moça se perdia. Só restava o puteiro. Virava escrava de cafetina.
No final do mês, tava devendo. Buceta em brasa e a conta no vermelho. Mal dava pra comer. Quarto dividindo com mais de sete putas. E os sonhos de que um dia poderia aparecer o responsável pela quebra do cabaço.
Puta é romântica. Por mais que precise do dinheiro. Só depois é que a gente descobre que tem que aprender a manejar a navalha. Sua avó foi assim. Envolveu-se com um moço branco. Estudante de direito. Foi comida por ele. Apaixonou-se e seu bisavô mandou ela ir embora. Sumiu. Levou um tempão sem ninguém saber. Quando apareceu era só osso. Morreu tuberculosa.
Comigo não foi diferente. Me perdi na vida. Não tinha outra saída. Me juntei com um estivador que todo dia me passava na cara que eu era puta. Quando ele me comeu eu não era mais virgem. Todo dia chegava em casa e me dizia isso. Não guentei tanta bordoada. Cheiro de bebida. Maus tratos. Conheci seu pai. Esse pelo menos não me dizia que eu era puta, embora me tratasse como uma. Só enfiava o pau. Foi aí que eu engravidei de você. Aí eu já não tinha mais sonho pessoal.
Já estava certa de que era uma condenada a sofrer todas as dores perpétuas. Mas passei a sonhar por você. Projetei um futuro mais branco. Menos tenebroso. E ainda sonho.
A morte me esperava, como ainda me espera. Penso que não me levou ainda porque conspira com os homens só pra saber até onde eu suporto. Penso que é uma espécie de laboratório físico e espiritual.
Vai, mas não se esqueças de que os mesmos estrangeiros que nos trouxeram pra aqui em seus navios continuam a espreita. Sonhe com um futuro mais digno. Essa não é mais uma realidade tão distante. Embarque. Distante mesmo ficou a África de nossos ancestrais. Porque os navios negreiros, pra a África não voltam nunca mais.
1 comentários:
Brasil é segundo país mais desigual do G20, aponta estudo.
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